30.11.06

Pérolas Manoelescas

Tenho dançado essas coisas...
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- O que não sei fazer desmancho em frases.
- Ele tinha uma voz de harpas destroçadas.
- Tudo o que não invento é falso.
- Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
- As palavras me escondem sem cuidado.
- Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
- Sou muito preparado de conflitos.
- Tem mais presença em mim o que me falta.
- Por pudor sou impuro.
- A minha diferença é sempre menos.
- Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
- Só o obscuro nos cintila.
- Eu queria crescer para passarinho.
- O menino de ontem me plange.
- Eu fiz o nada aparecer.
- Não preciso do fim para chegar.
- Do lugar onde estou já fui embora.

(todas do Manoel de Barros que, aliás, mora em Campo Grande-MS)

29.11.06

Programa de índio?

No último domingo, fui assistir à minha mãe cantar. Ela tem só 54, mas faz parte de um Coral da 3ª idade. Minha mãe não é velha, ainda tem o espírito desejoso das crianças.

Minha mãe era solista. Ela cantava "Do-o-na No-o-bis... Dooo-ooo-oona Nooo-ooo-oobis... Pa-a-cem!". Ela tinha um certo sorriso tímido e tenso, típico de quem está no foco e não veste máscaras para disfarçar. E eu lá, todo paternal, cheio de orgulho por ter sido quem mais a incentivou, de quem quer que ela encontre a felicidade dentro de si (até porque a libertação dela é a minha também). Se ela agora se procura e encontra na música, bom caminho. A música me cura de mim a cada segundo, por que não faria o mesmo a ela?

Claro que me lembrei dos meus 8 anos de CoralUSP. Todas as aulas de técnica vocal, de regência, os amigos, as picuinhas, as descobertas...

O lugar era quente, tava abarrotado de familiares afoitos por aplaudir e apoiar seus queridos (mais ou menos como a minha mãe fazia com os três filhos em tantas ocasiões, ou fazia quase que por educação, em outras que reprovava). Programa de índio?

O mais interessante era observar os velhinhos... Tinha velhinha com peruca torta cobrindo os olhos. Tinha velhinho com as mãos tremendo ao segurar a pasta de partituras. Tinha velhinha que mal conseguia ler a letra e acompanhar com os lábios. Tinha bastante ego de maestro falando de boca cheia de si mesmo. Tinha regente inseguro com o que falar. Tinha arranjos bonitos. Tinha arranjos feios. Tinha música de igreja. Tinha samba. Tinha clássicos. Tinha gente fazendo picuinha, falando mal dos outros coros. Tinha coral mal organizado, que demorou 40 minutos para entrar e se ajeitar no palco. Tinha maestrina com cara de enfermeira que adora aplicar injeção, como diria o Sulfuroso Eto que me acompanhava. Tinha regente que mostrava plaquinha com o nome da música para o coro e depois falava o nome para a platéia (então por que diabos...?). Tinha música psicografada e arranjo mediúnico. Tinha gente desafinada.

E não é chegou aquela hora em que quem faz e gosta de arte desliga o perseguidor e curte sem frescuras? E tinha brilho no olhar. E tinha paixão ao cantar, como se fosse a última coisa que se quisesse fazer na vida, quase um epitáfio. Tinha velhinha remexendo no samba. Tinha gente afinada. Tinha velhinho de óculos escuros dançando que nem gatão de 18 anos, charme, muito charme. Tinha simplicidade. Tinha pureza. Tinha vida. E mais do que nos espetáculos espetaculares que se vê pelas broadways do mundo: tinha alma.

Minha nova chefe tem me dito: "não dá para tomar os outros por nós mesmos. Precisamos falar a língua de todos, não a nossa própria". Básico em Comunicação (e ela nem é expert nisso). E eu me vejo tanto ainda me perdendo em excelências desnecessárias, em sofisticações para poucos, em lordezas pomposas, em ser o melhor em tudo... Eu queria ser realmente simples e não metido a nada. E ali, naquele bando de velhinhos semi-afinados, semi-organizados, semi-tantas-coisas, encontrei tantas pérolas.

Minha mãe, quando saiu do palco, me disse: "tinha quase-certeza-absoluta de que você viria". Preciso? Eu fui embora com a sensação de dever cumprido, misturada com a gratidão do que recebi. Com o coração limpo. Fui para casa, para dormir na mesma paz que minha mãe tanto pedia em seu solo.

27.11.06

Sim, eu estava triste... Mas foi há mais de um mês, já passou!

ALIEN
(Eden Castelo Branco)

Existe uma dor que é só minha
Escrita em papel
De carne e osso
E tinta
Vermelho-sangue

Sem pedir, ela se diz:
Eu tenho um coração batendo na barriga.

A cada pulso, ela se grita:
Um dia eu nasço de mim.

Sim, eu fico triste

A MORTE DO MONSTRO EM MIM
(Eden Castelo Branco)

Uma banca
De urubus
Com sua estranha
Sinfonia atonal de olhares
Me
Se
Me
O-lha-ndo

Olhos de urubus
Trocam
Pensamentos
Entre si

Com suas
Garras
Me tentam
Perguntas(r)

Eu
Pobre
Passarinho mostruoso que urubugavião também e ainda sou
(e carniça)
E que garras tenho a-paradas
Perdido
Em ninho de sentimentos
E sentidos
Me (es)forço
O pensar

Eu
Que por espelho tenho meus companheiros
(ilusão)
Finjo para todos
A todo momento
Estar bem
Ser (o) melhor
Baixo o olhar
Esperando
- ponto ponto ponto inter-roga-ção ponto -
A aprovação

Re-provado
Re-preso
o mostro
em mim

Não demonstro
Ma(i)s mostro
Eu só queria sair daqui
De dentro
Eu só queria que esse monstro
Morresse (e pronto)

Eu só quero que essa
lágrima
-espremida-
não
corra
c
o
r
r
e
s
s
e

Quem é Curumim?

Dualismo
(Olavo Bilac)

Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, entre maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando num vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.