29.11.06

Programa de índio?

No último domingo, fui assistir à minha mãe cantar. Ela tem só 54, mas faz parte de um Coral da 3ª idade. Minha mãe não é velha, ainda tem o espírito desejoso das crianças.

Minha mãe era solista. Ela cantava "Do-o-na No-o-bis... Dooo-ooo-oona Nooo-ooo-oobis... Pa-a-cem!". Ela tinha um certo sorriso tímido e tenso, típico de quem está no foco e não veste máscaras para disfarçar. E eu lá, todo paternal, cheio de orgulho por ter sido quem mais a incentivou, de quem quer que ela encontre a felicidade dentro de si (até porque a libertação dela é a minha também). Se ela agora se procura e encontra na música, bom caminho. A música me cura de mim a cada segundo, por que não faria o mesmo a ela?

Claro que me lembrei dos meus 8 anos de CoralUSP. Todas as aulas de técnica vocal, de regência, os amigos, as picuinhas, as descobertas...

O lugar era quente, tava abarrotado de familiares afoitos por aplaudir e apoiar seus queridos (mais ou menos como a minha mãe fazia com os três filhos em tantas ocasiões, ou fazia quase que por educação, em outras que reprovava). Programa de índio?

O mais interessante era observar os velhinhos... Tinha velhinha com peruca torta cobrindo os olhos. Tinha velhinho com as mãos tremendo ao segurar a pasta de partituras. Tinha velhinha que mal conseguia ler a letra e acompanhar com os lábios. Tinha bastante ego de maestro falando de boca cheia de si mesmo. Tinha regente inseguro com o que falar. Tinha arranjos bonitos. Tinha arranjos feios. Tinha música de igreja. Tinha samba. Tinha clássicos. Tinha gente fazendo picuinha, falando mal dos outros coros. Tinha coral mal organizado, que demorou 40 minutos para entrar e se ajeitar no palco. Tinha maestrina com cara de enfermeira que adora aplicar injeção, como diria o Sulfuroso Eto que me acompanhava. Tinha regente que mostrava plaquinha com o nome da música para o coro e depois falava o nome para a platéia (então por que diabos...?). Tinha música psicografada e arranjo mediúnico. Tinha gente desafinada.

E não é chegou aquela hora em que quem faz e gosta de arte desliga o perseguidor e curte sem frescuras? E tinha brilho no olhar. E tinha paixão ao cantar, como se fosse a última coisa que se quisesse fazer na vida, quase um epitáfio. Tinha velhinha remexendo no samba. Tinha gente afinada. Tinha velhinho de óculos escuros dançando que nem gatão de 18 anos, charme, muito charme. Tinha simplicidade. Tinha pureza. Tinha vida. E mais do que nos espetáculos espetaculares que se vê pelas broadways do mundo: tinha alma.

Minha nova chefe tem me dito: "não dá para tomar os outros por nós mesmos. Precisamos falar a língua de todos, não a nossa própria". Básico em Comunicação (e ela nem é expert nisso). E eu me vejo tanto ainda me perdendo em excelências desnecessárias, em sofisticações para poucos, em lordezas pomposas, em ser o melhor em tudo... Eu queria ser realmente simples e não metido a nada. E ali, naquele bando de velhinhos semi-afinados, semi-organizados, semi-tantas-coisas, encontrei tantas pérolas.

Minha mãe, quando saiu do palco, me disse: "tinha quase-certeza-absoluta de que você viria". Preciso? Eu fui embora com a sensação de dever cumprido, misturada com a gratidão do que recebi. Com o coração limpo. Fui para casa, para dormir na mesma paz que minha mãe tanto pedia em seu solo.

11 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns pelo novo filho.
Cuide bem dele.
Visito sempre que puder.
Beijos
Cezar

Anônimo disse...

Programa de índio, sim, dos melhores! Ver seu relato foi como me ver assistindo feito insuportavelmente coruja nas apresentações do meu pai na "Orquestra de Violeiros de Mauá", esta tão chiquérrima quanto a da sua mãe.
Se é de sensibilidade que se faz arte, belos arteiros temos em casa. Só espero um dia estar a altura de seguir o exemplo. Ah.. que se esbaldem feito crianças com mangueira e tanque em dia de calor.
Lembrei do filme: "Little Miss Sunshine", ASSISTAM. É maravilhoso e mostra de uma forma tão imperfeita, tão humana, tão nossa, o que Drummond, muito sensivelmente disse: "Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo."
Beijos, Curu

Anônimo disse...

Meu amor!
E muito bom ter você sempre por perto. A tua presença me deixa envaidecida e orgulhosa.
Fico feliz em poder contar com tua sinceridade e teu conhecimento.
Eu te falei algumas vezes, que me realizo em você. É como se me visse em algum lugar muito distante, fazendo e realizando todas as artes no palco da vida.
Cantar, dançar, representar ou tocar qualquer instrumento é um dom, e este você tem até demais.
O que mais me admira é que eu gostaria de ser e ter, assim como você; coragem, inteligência e ousadia. Quem sabe eu chego lá?
Obrigada pelos comentários sobre o coral, o teu incentivo e críticas construtivas me ajudam a crescer. Estou em busca dos meus sonhos, me realizo quando canto e sabes que adoro dançar, é como se estivesse indo para o infinito. Espero ter muito tempo ainda para me encontrar.
Beijos de Mami

Anônimo disse...

Adoramos o blog... sua cara tio ET!
Você deveria virar escritor! Pra variar, ia se dar bem, acredite!rs
Vamos lhe visitar sempre, mas comentários mesmo, só com muita inspiração!
Um beijão duplo das gatinhas
Dd e Helena.

Curumim disse...

Cezinha,

Meu filho é mimado que nem o pai. Adora um afago. Volte, volte... :)

Curumim disse...

Magic Van,

Quero muito um dia escutar a Orquestra de Violeiros de Mauá ao vivo!
Para fazer arte, é só começar. Parafraseando um comentário que li no blog do Bressane: "Quando a moça põe a for no cabelo, não está ela a fazer arte? Eu diria que só me ocupo um pouco mais com ela do que os outros".
Bjo,
Curu

Curumim disse...

Sim, ASSISTAM a "Pequena Miss Sunshine".

Faço minhas as palavras do Sulfuroso em www.planinonline.com.br

Curumim disse...

Mamilu,

Sempre é tempo de experimentar. Coragem, ousadia e inteligência todos temos, cada um do seu jeito. Aliás, bom que seja assim, porque aí "as palavras caberão em nossas bocas". Uma questão de começar.
Quando estamos prontos, a vida urge para o que tanto ansiamos, e tudo acontece...

(sim, eu adoro provocar mamilu)

Curumim disse...

Já tô me vendo escrevendo um monte de coisas para Helena aqui... Afe.

DD, eu escrevo aqui, procêis. Já tá bão demais. :)

Anônimo disse...

Quanto a Orquestra de Violeiros, pode deixar que eu te aviso quando for uma dessas apresentações chiquérrimas deles! =)

Ai que coisa mais fofa!!!!! Quase chorei com o comentário da Mami! rs
Tb quero mimo, rs.

Ai, Curu, sulforoso?!?! Você também é fogo!!

Beijos

Curumim disse...

Sinta-se mimadíssima, Van! :P